Mulher deitada na cama no escuro, sem conseguir dormir

O corpo avisa antes de você perceber

Três da manhã. Você acorda de novo, sem motivo aparente. A casa está em silêncio, todo mundo dormindo, e sua cabeça começa a repassar a lista do dia seguinte. O peito aperta um pouco. Você vira para o lado, tenta respirar fundo e pensa que amanhã o café vai ter que fazer o trabalho que o sono não fez. Faz semanas que é assim, e você diz para si mesma que é fase, que já passa.

Talvez passe. Mas talvez esse despertar das três da manhã esteja tentando te contar alguma coisa.

O que o corpo diz quando a gente não consegue dizer

Tem coisas que a gente sente e não consegue colocar em palavras, às vezes porque não teve espaço, às vezes porque nem sabe que sente. Pode ser uma raiva engolida no almoço de família, uma tristeza deixada para depois porque tinha criança para buscar na escola, ou um medo que parece bobo demais para ser falado. Essas emoções não desaparecem por não terem sido ditas. Elas procuram outro caminho, e muitas vezes o caminho que encontram é o corpo.

A psicanálise nasceu, em boa parte, da escuta de mulheres cujo corpo falava aquilo que elas não podiam falar. Mais de cem anos depois, isso continua aparecendo no consultório. É a dor de cabeça que chega toda segunda-feira, o estômago que trava na época das festas de família, a tensão nos ombros que não sai com massagem nenhuma, o cansaço que não melhora nem depois de dormir. E é também a insônia que começou mais ou menos na mesma época em que a mãe adoeceu, embora ninguém tenha ligado uma coisa à outra.

Antes de seguir, um cuidado importante: qualquer sintoma assim precisa ser avaliado por um médico, e nada neste texto substitui uma consulta ou um exame. Outubro, aliás, é um bom lembrete disso. Se você anda adiando a mamografia, o check-up ou aquela ida ao ginecologista, este é o mês de marcar. O que eu proponho é somar outra escuta à escuta médica. Quando os exames vêm normais e o sintoma continua, ou quando ele piora sempre nos mesmos contextos, vale se perguntar o que mais está acontecendo na sua vida.

Por que você é a última a perceber

Se o corpo avisa, por que a gente demora tanto para escutar? Em mulheres que cuidam de todo mundo, a resposta costuma ser parecida. Você percebe na hora quando seu filho está com febre, quando seu marido está mais calado, quando sua mãe está escondendo alguma coisa. Enquanto isso, a sua dor nas costas já está aí faz seis meses, e você só lembra dela quando alguém pergunta.

Isso vem de um aprendizado antigo, o de que as próprias necessidades podem esperar. Muitas de nós crescemos ouvindo que reclamar era frescura, que tinha gente em situação pior, que era para engolir o choro. O corpo aprendeu a aguentar, até o dia em que não aguenta mais. E existe ainda outra camada: às vezes é mais fácil ter uma dor física do que admitir uma dor emocional. Dor de cabeça tem remédio e tem nome, ninguém questiona. Já “estou triste e não sei por quê” parece difícil de justificar, até para você mesma. Então a tristeza fica quieta durante o dia e aparece às três da manhã, quando não há mais nenhuma tarefa para distrair.

Voltar às três da manhã com outra escuta

Diante de um sintoma, a primeira reação costuma ser calar: toma um remédio, toma mais um café e segue. Às vezes é isso mesmo que dá para fazer naquele dia. Mas, se o sinal volta sempre, talvez esteja pedindo outra coisa.

Na terapia, a escuta começa exatamente aqui, olhando para o corpo com curiosidade em vez de irritação. Em que momentos o peito aperta? O que aconteceu no dia em que a enxaqueca veio? Com quem você estava quando o estômago travou? Anotar isso por algumas semanas já mostra muita coisa. Falando sobre essas cenas, dá para perguntar o que esse sintoma pode estar dizendo: uma raiva que não teve lugar, um cansaço que você não se permite sentir, uma decisão que você vem adiando. Não existe resposta pronta, e vale desconfiar de qualquer lista que diga “dor no ombro significa tal coisa”. Cada história é única, e a sua merece ser escutada com calma.

Da próxima vez que você acordar de madrugada com o peito apertado, experimente não brigar com o corpo. Em vez de repassar a lista de tarefas, pergunte o que está pesando e o que você não disse para ninguém nos últimos dias. Pode ser que a resposta não venha naquela noite. Ainda assim, algo muda quando você para de tratar o corpo como um inimigo que falha e começa a vê-lo como um aliado que avisa, que tenta te proteger antes que o problema vire uma coisa maior.

Escutar esses avisos é um tipo de cuidado que não aparece em nenhuma lista de tarefas. É se tratar com a mesma atenção que você dá a quem ama.

Se você sente que seu corpo anda falando alto e quer um espaço para entender o que ele está tentando dizer, a terapia pode ajudar nisso. Pelo botão de agendamento aqui no site, você fala direto comigo no WhatsApp, e a gente combina como começar essa escuta juntas.

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