A menina que aprendeu a não dar trabalho
Véspera do Dia das Crianças. Você está arrumando o armário do seu filho para abrir espaço para o presente, que já está escondido no porta-malas do carro. Atrás de uma pilha de cadernos velhos aparece uma pasta sua, que sua mãe te entregou anos atrás e você nunca abriu direito. Dentro, um boletim da terceira série. No campo de observações, com a letra caprichada da professora: “Aluna exemplar. Muito quieta, nunca dá trabalho.” Você sorri. E depois, sem entender bem por quê, sente um nó na garganta.
Esse nó tem motivo. Aquela frase, que soou como elogio a vida inteira, diz muito sobre a mulher que você se tornou.
Quando não dar trabalho vira identidade
Pense na menina daquele boletim. Ela não levantava a mão para perguntar duas vezes, não chorava na frente dos outros, não pedia o brinquedo que queria porque sabia que o dinheiro estava curto. Percebia o cansaço da mãe pelo barulho das chaves na porta e já arrumava o quarto antes que alguém pedisse. Os adultos achavam lindo. “Essa aí é tranquila”, diziam. E a menina entendia o recado: ser amada tinha a ver com ocupar pouco espaço.
Criança nenhuma escolhe isso de forma consciente. Ela se adapta ao que encontra. Se a casa já tinha problemas demais, um pai ausente, uma mãe sobrecarregada, um irmão que exigia toda a atenção, ser a filha fácil era um jeito de ajudar e, ao mesmo tempo, de garantir um lugar. Na psicanálise, a gente olha com muito respeito para essas soluções da infância. Elas foram inteligentes e funcionaram.
O problema é que ninguém avisa a menina quando o perigo passou. Ela cresce, sai de casa, casa, tem filhos, e continua seguindo a mesma regra.
A boazinha que virou adulta
Hoje a regra aparece de outro jeito. Você não pede ajuda ao marido porque “é mais rápido fazer sozinha”. Engole a irritação com a colega de trabalho para não criar clima. Só vai ao médico quando a dor já não deixa dormir, porque marcar consulta antes disso parece frescura. Quando alguém pergunta o que você quer comer, a resposta sai automática: “tanto faz, escolhe você”. E a pessoa escolhe, toda vez.
Por fora, isso parece maturidade. Por dentro, costuma ter outro nome. Muitas mulheres que chegam ao meu consultório descrevem a mesma sensação: a vida está organizada, todo mundo está bem atendido, e elas não sabem dizer do que gostam. Perderam o contato com a própria vontade de tanto deixá-la para depois. Algumas sentem uma raiva que não entendem. Outras sentem só cansaço, um cansaço antigo que parece não ter começo.
Tem também um medo escondido nessa história. A menina que não dava trabalho aprendeu que o amor podia ir embora se ela incomodasse. A mulher adulta, sem perceber, ainda acredita nisso. Por isso pedir alguma coisa para si dá tanta ansiedade, e um simples “hoje eu não posso” vem acompanhado de mil justificativas.
Devolver a voz àquela menina
Não dá para voltar no tempo e reescrever o boletim. Mas dá para olhar para aquela menina de outro jeito. Ela não era boazinha por natureza. Era uma criança que fez o que pôde com o que tinha, e que merecia ter sido vista também nos dias em que estava triste, com raiva ou cheia de vontades.
Na psicanálise, esse trabalho começa pela escuta. Na terapia, você vai falando da sua vida e, aos poucos, começa a reparar nos momentos em que se encolhe para não incomodar: o “tanto faz” que sai antes de você pensar, o pedido que fica engasgado, o desconforto quando alguém faz algo por você. Conversa após conversa, esses gestos de hoje vão se ligando à história de ontem, e fica mais claro que regra eles ainda estão cumprindo e para quem. Quando essa regra ganha palavras, ela deixa de mandar sozinha. A mudança vem aos poucos, em pequenas experiências de ocupar espaço, como escolher o restaurante, pedir que alguém busque as crianças ou dizer que ficou chateada sem esperar o assunto esfriar.
Nas primeiras vezes vai parecer estranho, até um pouco errado. Faz sentido que pareça, porque você está contrariando uma regra que te acompanha há décadas.
Então, se aquele boletim ainda estiver em cima da cama, guarde-o com carinho. Antes de fechar a pasta, faça uma pergunta para a menina que ele descreve: o que você queria ter pedido e nunca pediu? Neste Dia das Crianças, talvez valha começar a ouvir a resposta.
Se você se reconheceu nessa menina e quer entender como ela ainda decide por você, a terapia pode ser um bom lugar para começar. É só clicar no botão de agendamento aqui no site: ele abre uma conversa comigo no WhatsApp, e a gente combina a sua primeira sessão.