Mulher cansada parada na porta da cozinha de casa

Quem cuida de quem cuida?

São nove e meia da noite. Você acabou de responder a mensagem da sua irmã, que precisava desabafar sobre o chefe. Antes disso, ouviu sua mãe no telefone por quarenta minutos, ajudou seu filho a terminar a maquete e lembrou seu marido do exame que ele vive adiando. Agora a casa está quieta. Você senta no sofá, pega o celular e percebe que não sabe o que fazer com esse tempo. Ninguém está precisando de você, e isso, que deveria ser um alívio, deixa um vazio estranho no peito.

Eu quero ficar um pouco com você nesse sofá, porque esse vazio tem muito a dizer.

Quando ninguém precisa de você

Durante o dia, não sobra tempo para sentir nada. As demandas chegam uma atrás da outra e você vai resolvendo, porque é isso que você sabe fazer bem. Aos poucos, virou o porto seguro da família: é para você que ligam quando alguém briga, é você quem organiza os remédios quando alguém adoece, é sua a última palavra quando é preciso decidir alguma coisa, mesmo que ninguém admita isso em voz alta.

Esse lugar tem um gosto bom no começo. Ser necessária dá sentido e dá um lugar no mundo. O problema é que, quando o papel ocupa todo o espaço, não sobra nenhum canto onde você possa simplesmente não dar conta. E é por isso que o silêncio das nove e meia incomoda tanto. Sem ninguém para cuidar, você fica frente a frente com uma pergunta que evitou o dia inteiro: e eu, do que eu preciso?

Muitas mulheres que chegam ao meu consultório não sabem responder. Sabem de cor o que o filho gosta de comer, o remédio da mãe, o horário da reunião do marido. Sobre si mesmas, ficam em silêncio. Esse silêncio não é descuido. Ele tem uma história.

De onde vem a necessidade de ser útil

Quem cuida de todo mundo costuma ter aprendido cedo que o amor chega pela utilidade. Talvez você tenha sido a filha que ajudava em casa sem precisar ser mandada, que não dava trabalho, que percebia o humor da mãe antes de ela abrir a boca. Para uma criança, isso foi uma forma inteligente de garantir afeto num ambiente onde ele era escasso ou imprevisível.

A criança cresceu, mas a estratégia continuou rodando no automático. Por isso pedir ajuda hoje parece fraqueza, e receber cuidado dá um desconforto quase envergonhado. Quando alguém pergunta “e você, como está?”, a resposta sai pronta, “tô bem, correria”, e a conversa volta rapidinho para o outro. Lá no fundo mora um medo de que quase ninguém fala: se você deixar de ser útil, as pessoas podem deixar de ficar.

Esse medo ajuda a entender o cansaço que você sente, que não passa com uma noite bem dormida nem com um fim de semana na praia. Você chega nas férias e continua checando se todo mundo comeu, se a sogra está confortável, se o quarto ficou bom. Estar sempre em alerta cansa de um jeito que o sono não resolve. E esse cansaço costuma aparecer em lugares inesperados, como a irritação por uma bobagem, o choro no banho ou a vontade de sumir uns dias sem avisar ninguém, seguida logo depois pela culpa de ter pensado nisso.

Outubro é o mês em que se fala de cuidado com a saúde da mulher, de exames e de prevenção. Talvez valha fazer aqui uma pergunta honesta: quando foi a última vez que você marcou a sua consulta com a mesma rapidez com que marca a dos outros? Às vezes o primeiro sinal de que a gente se deixou de lado está ali, na agenda.

Voltar para o sofá, de outro jeito

Mudar esse padrão não significa virar outra pessoa nem deixar de cuidar de quem você ama. Significa, aos poucos, incluir você na lista de quem merece cuidado. Na terapia, esse caminho começa pela escuta. Antes de mudar qualquer coisa, você passa a notar quantas vezes por dia diz “deixa que eu faço”, o aperto no peito quando alguém pede mais um favor e o que acontece dentro de você naquele minuto em que ninguém precisa de nada.

Falando sobre isso, sessão após sessão, você vai entendendo de onde veio essa necessidade de ser o porto seguro e que história ela conta sobre você. A psicanálise aposta que, quando essa história ganha palavras, ela deixa de decidir sozinha. Aí ficam possíveis escolhas pequenas: deixar alguém resolver sozinho, dizer “hoje não consigo”, aceitar uma ajuda sem correr para compensar em seguida.

Então, da próxima vez que a casa ficar quieta às nove e meia e aquele vazio aparecer, experimente não preencher o silêncio com o celular. Fique um pouco com ele e pergunte a si mesma o que você gostaria de ter recebido hoje. Pode ser que a resposta demore. Tudo bem. Ela está ali há muito tempo, esperando que alguém pergunte.

Aprender a receber cuidado leva tempo, e ninguém precisa fazer isso sozinha. Se você sentiu que este texto falou de você, eu gostaria de te ouvir. É só clicar no botão de agendamento aqui no site: ele abre uma conversa comigo no WhatsApp, e a gente combina a sua primeira sessão, sem pressa.

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