A culpa que a gente sente sem saber por quê
Domingo, quatro da tarde. A roupa está lavada, o almoço da semana já foi adiantado, as crianças estão brincando e ninguém está precisando de nada. Você finalmente senta com um café. E, em vez de descanso, vem um incômodo difícil de explicar. Uma sensação de que está devendo alguma coisa a alguém, de que esqueceu algo importante, de que não deveria estar ali parada. Você repassa mentalmente a lista inteira e não encontra nada pendente. Mesmo assim, a sensação continua.
Se você conhece essa culpa sem motivo, saiba que ela é mais comum do que parece, e que ela tem uma história.
Uma culpa sem endereço
Existe a culpa que tem endereço certo. Você esqueceu o aniversário de uma amiga, falou alto com seu filho, deixou de entregar algo no trabalho. Essa culpa incomoda, mas é compreensível: aponta para um fato, e você pode pedir desculpas ou reparar.
A culpa daquele domingo é outra. Ela não aponta para nada específico, fica no fundo, como um ruído constante. Aparece principalmente nos momentos de pausa, quando não há tarefa para cumprir. E muitas mulheres acabam organizando a vida para fugir dela. Enchem a agenda, arrumam mais uma gaveta, inventam mais uma coisa para fazer, porque parada a culpa fica mais alta.
Na psicanálise, a gente leva essa sensação a sério justamente porque ela não parece ter motivo. Quando um sentimento não encontra explicação no presente, geralmente é porque ele vem de outro lugar.
De onde essa culpa pode vir
Uma das origens mais frequentes é a exigência que a gente carrega de dentro. Se você cresceu num ambiente em que o amor dependia de estar sempre ajudando, sempre fazendo, sempre sendo boazinha, é possível que tenha aprendido a sentir que só tem valor quando está produzindo. Nesse caso, descansar ativa um alarme antigo. O domingo à tarde parado vira, lá dentro, sinônimo de estar fazendo algo errado.
Outra fonte, menos falada, são os sentimentos que a gente não se permite ter. Raiva da mãe, cansaço dos filhos, vontade de ter um tempo longe do marido. Sentimentos assim são humanos, mas muitas mulheres aprenderam que eles são proibidos. Então empurram para longe. Só que o sentimento empurrado não desaparece, e muitas vezes volta disfarçado de culpa, uma culpa que não sabe mais de onde veio porque a raiva original ficou escondida.
Existe ainda uma culpa que atravessa gerações. Às vezes você tem hoje algo que sua mãe ou sua avó nunca tiveram: um trabalho de que gosta, liberdade para escolher, uma tarde de domingo com café. E, sem perceber, sente que não tem direito a isso, como se estar bem fosse uma espécie de traição a quem sofreu antes de você. Essa é uma das culpas mais silenciosas que eu escuto no consultório, e uma das que mais aliviam quando ganham nome.
Nenhuma dessas explicações vale para todo mundo. Cada mulher tem a sua história, e é essa história que dá sentido à culpa dela. Mas perceber que a culpa pode ter raízes antigas já muda a forma de olhar para aquele domingo.
Dar nome ao que pesa
A culpa sem motivo costuma perder um pouco da força quando a gente para de fugir dela e começa a escutá-la. É isso que a psicanálise propõe. Em vez de levantar do sofá e procurar uma tarefa, você pode ficar um minuto com a sensação e reparar onde ela aparece no corpo, em que momentos da semana ela vem mais forte, o que você estava fazendo logo antes.
Depois vem a pergunta, feita com calma: de quem é essa cobrança? Às vezes a resposta surge como uma lembrança, uma frase ouvida na infância, a imagem de alguém da família que nunca descansava. Outras vezes ela demora e só aparece aos poucos, conversa após conversa, na terapia. Não tem pressa. Quando a culpa ganha palavras e uma história, fica mais fácil permitir, de pouco em pouco, que a pausa exista sem precisar ser justificada.
Da próxima vez que o domingo chegar e a culpa aparecer junto com o café, experimente não obedecer imediatamente. Fique sentada mais um pouco. Pergunte a ela o que ela quer de você. Talvez ela não responda naquele dia. Mesmo assim, você terá feito algo diferente do habitual: terá ficado do seu próprio lado.
Você não precisa carregar sozinha uma culpa que nem sabe de onde veio. Se essa sensação acompanha você há tempo demais, a terapia pode ajudar a encontrar a origem dela. Quando se sentir pronta, clique no botão de agendamento aqui no site e me chame no WhatsApp. A gente conversa e marca a sua sessão.