Por que é tão difícil se colocar em primeiro lugar
Na gaveta da cômoda tem um vale-presente de massagem que você ganhou no seu aniversário. Já se passaram oito meses. Toda vez que você abre a gaveta para pegar outra coisa, vê o envelope e pensa que precisa marcar. Mas sempre aparece algo mais urgente: a reunião da escola, o conserto do carro, a visita da sogra. Semana passada você finalmente ligou para agendar e, no meio da ligação, desistiu. Uma hora e meia deitada numa maca enquanto tinha tanta coisa por fazer em casa? Pareceu egoísmo demais.
O vale continua lá, perto de vencer. E eu queria conversar com você sobre ele, porque ele diz muito sobre o lugar que você ocupa na sua própria vida.
Por que escolher você parece egoísmo
Repare na palavra que apareceu na hora de desistir: egoísmo. Não foi “não tenho tempo” nem “não tenho dinheiro”. Foi a sensação de que tirar uma hora e meia só para você seria errado, quase uma falta de caráter.
Muitas mulheres carregam essa confusão sem perceber. Na cabeça delas, cuidar de si é tirar algo de alguém. Se você descansa, alguém fica sem ajuda. Se você diz que prefere ficar em casa, alguém se decepciona. Se você gasta com você, falta para outra coisa. Então a conta sempre fecha do mesmo jeito: você vai para o fim da fila e ainda se sente aliviada por não ter “incomodado”.
Só que egoísmo é outra coisa. Egoísmo é não conseguir enxergar o outro, é usar as pessoas sem se importar com o que elas sentem. Uma mulher que pensa em todo mundo antes de marcar uma massagem está bem longe disso. O que ela tem, na verdade, é um juiz interno muito severo, que transforma qualquer gesto de cuidado consigo mesma em motivo de acusação.
Quem te ensinou que você vem por último
Esse juiz não nasceu com você. Ele foi montado aos poucos, com frases que você ouviu e com cenas que viu se repetir. Talvez você tenha crescido vendo sua mãe comer por último, servir o prato de todo mundo antes do dela, nunca sentar no sofá enquanto houvesse louça na pia. Talvez tenha ouvido que menina boa divide, empresta, não reclama. Talvez tenha sido elogiada toda vez que abriu mão de alguma coisa, e criticada quando pediu algo para si.
Nada disso precisou ser dito de forma dura para funcionar. A criança aprende observando o que traz aprovação e o que traz silêncio. E aprende rápido. Quando adulta, ela já não precisa de ninguém mandando: a voz que cobra passou a morar dentro dela. É essa voz que diz “você não merece parar agora” bem na hora em que você pega o telefone para agendar a massagem.
Existe ainda uma camada cultural que reforça tudo isso. Durante muito tempo, a mulher admirada foi a que se sacrifica, a mãe que se anula, a esposa que aguenta. Quem foge desse roteiro corre o risco de ser chamada de fria, de desnaturada, de egoísta. Então não é estranho que se colocar em primeiro lugar dê medo. Parece que você está quebrando uma regra que sustenta a sua imagem de boa pessoa.
O custo, porém, aparece com o tempo. A mulher que nunca vem em primeiro lugar acaba cansada, irritada, com a sensação de que a vida passa e ela assiste de fora. E, curiosamente, as pessoas ao redor nem sempre se sentem mais amadas por isso. Muitas vezes elas só se acostumam.
Usar o vale antes que ele vença
Colocar-se em primeiro lugar não quer dizer abandonar quem você ama nem virar outra pessoa. Quer dizer, de vez em quando, entrar na própria lista de prioridades, e às vezes no topo dela.
Na terapia, esse movimento começa pela escuta. Falando, você passa a notar em que momentos a palavra egoísmo aparece, o que você estava prestes a fazer por você quando ela surgiu e como o corpo reage nessa hora. Aos poucos, dá para reconhecer de quem é aquela voz que acusa. Muitas vezes ela tem o tom de alguém da sua história, e não o seu. A psicanálise trabalha justamente aí: quando essa voz ganha nome e história, ela perde parte da autoridade, e começam a aparecer escolhas bem concretas, como manter um compromisso consigo mesma com o mesmo respeito com que você mantém os compromissos com os outros.
A culpa não vai desaparecer de uma vez. Ela vai aparecer quando você deitar naquela maca, e provavelmente vai sugerir que você olhe o celular, que pense no jantar, que volte logo. Você pode deixá-la falar sem obedecer. Com o tempo, ela perde força, porque você vai acumulando a experiência de que cuidar de si não destruiu nada nem ninguém.
Então hoje, se puder, abra aquela gaveta. Pegue o envelope, ligue e marque. Se não for a massagem, que seja outra coisa que você vem adiando há meses porque parecia demais para você. Faça isso sabendo que a culpa talvez venha junto. Ela pode ir no banco de trás, mas não precisa dirigir.
Se você percebe que essa dificuldade de se escolher aparece em tudo, e quer entender de onde ela vem, a terapia pode ser um espaço para isso. É só clicar no botão de agendamento aqui no site: ele abre uma conversa comigo no WhatsApp, e a gente combina a sua primeira sessão.