Mãe, esposa, filha… e você?
Sábado à noite, aniversário de uma amiga. Você chegou atrasada porque deixou o jantar das crianças pronto, conferiu se sua mãe tinha tomado o remédio e passou a camisa que seu marido ia usar na reunião de segunda. No meio da festa, uma mulher que você acabou de conhecer puxa conversa e diz, com curiosidade sincera: “E você? Me conta de você.” Você fala do seu filho mais velho, que começou a natação. Fala da caçula, que anda com medo do escuro. Conta que sua mãe operou o joelho e que seu marido está num momento puxado no trabalho. Ela escuta, sorri, e alguém chama todo mundo para cantar parabéns.
Só no carro, voltando sozinha para casa, a pergunta volta. Me conta de você. E você percebe que passou dez minutos falando e não disse uma única coisa sobre si mesma.
Quando os papéis ocupam a casa inteira
Ser mãe, esposa e filha faz parte de quem você é, e muitas vezes é uma parte que você ama. O que pesa é quando esses papéis vão crescendo até ocupar todos os cômodos. Primeiro some o tempo livre, depois some o hobby que você tinha, depois as amigas viram contatos de aniversário. Um dia você nota que não sabe mais dizer qual música gosta de ouvir, que roupa compraria se pudesse escolher sem pensar em preço ou praticidade, o que faria numa tarde inteira só sua.
Isso raramente acontece de uma vez. Vai acontecendo nas pequenas trocas do dia: a aula de dança que ficou para quando as crianças crescerem, o livro esquecido na cabeceira, a viagem com as amigas que nunca saiu do grupo de mensagens. Cada renúncia, sozinha, parece pequena e até justa. Somadas, elas desenham uma mulher que existe principalmente em relação aos outros.
E existe um alívio escondido nisso, que pouca gente comenta. Os papéis dizem o que fazer. Mãe leva ao médico, esposa organiza a casa, filha visita no domingo. Já a pergunta “o que eu quero?” não vem com roteiro, e por isso pode assustar mais do que qualquer lista de tarefas.
De onde vem essa facilidade de sumir
Na psicanálise, a gente costuma perguntar de onde vem esse jeito de ser. Muitas mulheres aprenderam muito cedo que o seu valor estava em ser útil. A filha que ajudava em casa era elogiada, a que pedia atenção era chamada de mimada. Algumas cresceram vendo a mãe fazer exatamente isso, se dedicar a todos e nunca falar de si. Ninguém ensinou com palavras, mas o recado ficou.
Quando essa menina se torna adulta, ela repete o modelo sem perceber. Ser necessária vira uma forma de garantir amor. Por isso, quando alguém pergunta “e você?”, aparece um desconforto difícil de explicar. Falar de si mesma parece egoísmo, ou até perigo, como se ocupar espaço pudesse custar o lugar que ela conquistou cuidando de todo mundo.
Esse desconforto é uma pista. O tempo falta, claro, mas por baixo da falta de tempo costuma haver uma história antiga que continua decidindo, no presente, quanto espaço você pode ter.
Voltar a ter algo para contar
Na terapia, aquela pergunta da festa ganha outro lugar. Nas primeiras sessões, muitas mulheres fazem exatamente o que você fez no aniversário: falam dos filhos, do marido, dos pais. Está tudo bem começar assim, porque essas pessoas importam e fazem parte da sua vida. Com o tempo, numa escuta sem pressa e sem julgamento, a conversa vai mudando de rumo. Você começa a reparar nas vezes em que muda de assunto quando chega a sua vez, no incômodo de dizer “eu quero”, na lembrança de uma menina que gostava de desenhar e um dia parou.
Falar e ser ouvida faz diferença. Quando você dá palavras ao que sente, coisas que pareciam óbvias (“é assim mesmo, mãe é assim”) passam a ser vistas como escolhas que podem ser revistas. Você não precisa deixar de cuidar de ninguém para se reencontrar. O que muda é que você volta a entrar na própria lista, e não só no fim dela, quando sobra energia.
Isso acontece aos poucos. Às vezes começa com algo bem simples, como passar meia hora sozinha numa livraria sem justificar para ninguém. Outras vezes começa com uma frase dita em voz alta pela primeira vez, como “eu também estou cansada”.
Agora volte ao carro, naquela noite de sábado. As luzes da cidade passando, o rádio baixinho, a casa esperando com a louça na pia. Se a mulher da festa te fizesse a pergunta de novo, o que você gostaria de poder responder? Talvez você ainda não saiba. Mas o fato de a pergunta ter ficado com você já diz bastante. Tem alguém aí querendo ser ouvida.
Se você sentiu que essa pergunta é sua e quer começar a respondê-la com calma, a terapia pode ser esse espaço. É só clicar no botão de agendamento logo abaixo: ele abre uma conversa comigo no WhatsApp, e a gente combina a sua primeira sessão.