Por que a gente repete o que jurou nunca repetir
Sete e meia da manhã, todo mundo atrasado para a escola. Sua filha chora porque a meia está “esquisita” no pé, e você já trocou a meia duas vezes. Então a frase sai, alta, antes que você consiga segurar: “Para de fazer cena, que eu não tenho paciência pra isso!” A cozinha fica em silêncio. E você reconhece aquela voz. É a da sua mãe, com as mesmas palavras e o mesmo tom, numa manhã parecida trinta anos atrás. Você jurou, ainda menina, que nunca falaria assim com um filho seu.
No carro, a caminho da escola, a culpa pesa mais que o trânsito. E fica a pergunta: como isso aconteceu, se eu sabia exatamente o que não queria fazer?
A frase que estava guardada
A gente costuma achar que aprende com os pais só aquilo que eles ensinaram de propósito. Mas a criança aprende muito mais pelo que vive do que pelo que ouve. O jeito como a raiva circulava na sua casa, como o cansaço era tratado, o que acontecia quando alguém chorava, tudo isso ficou registrado como um modo de funcionar, quase um idioma. E o idioma materno a gente fala sem pensar, principalmente sob pressão.
Por isso a repetição aparece nos piores momentos. Com tempo, calma e uma noite bem dormida, você é a mãe que planejou ser. Às sete e meia, atrasada, depois de três noites mal dormidas, quem responde é o modelo antigo. Isso não acontece porque você seja igual à sua mãe. Acontece porque, quando os recursos acabam, a gente volta para o caminho que conhece.
Freud deu um nome para isso: compulsão à repetição. Aquilo que não pôde ser lembrado e elaborado tende a voltar em forma de ação. A gente repete justamente o que ainda não conseguiu pensar.
Jurar não basta
Muitas mulheres passam a vida tentando ser o oposto dos pais. Se a mãe era dura, elas tentam ser sempre doces. Se o pai era ausente, elas não saem de perto dos filhos nem por um fim de semana. Isso tem um valor enorme e muitas vezes interrompe uma história de sofrimento. Mas cobra um preço. Quando a gente vive em reação ao passado, ele continua decidindo, só que pelo avesso. E a pressão para nunca falhar fica tão grande que, no dia em que o cansaço vence, a falha vem com força dobrada.
Existe ainda outra camada, mais silenciosa. Às vezes a repetição aparece menos na frase dita para a filha e mais nas escolhas de vida. A mulher que jurou nunca depender de um homem, como a mãe dependia, e acaba num casamento em que carrega tudo sozinha. A que jurou nunca ser fria e hoje não consegue dizer não para ninguém. Os padrões atravessam gerações com roupas diferentes, e é por isso que demoram a ser reconhecidos.
Nada disso é motivo para se condenar. Sua mãe provavelmente também repetiu o que recebeu. A pergunta que ajuda não é “de quem é a culpa?”, e sim “agora que estou vendo, o que posso fazer de diferente?”.
Voltar para aquela cozinha
A mudança começa por perceber o que acontece no corpo antes da frase sair: a mandíbula que trava, o calor que sobe, o pensamento “de novo isso”. Quanto mais cedo você percebe, mais chance tem de escolher outra coisa. Na terapia, o trabalho continua pela palavra. Falando sobre aquela manhã, você vai chegando às perguntas que importam. De quem é essa voz? O que ela protegia naquela casa? O que a menina que você foi sentia quando ouvia aquela frase? É isso que Freud chamava de elaborar: dar lugar, em palavras, ao que antes só se repetia. A mudança vem depois, sem exigência de perfeição. Às vezes é respirar e falar mais baixo. Às vezes é não conseguir e, cinco minutos depois, se abaixar ao lado da sua filha e dizer: “Eu falei de um jeito que não foi legal. Desculpa. A meia estava mesmo te incomodando, né?”
Esse pedido de desculpas talvez seja exatamente o que a menina que você foi nunca ouviu. E ele também interrompe a repetição, porque mostra para a sua filha que dá para errar e consertar, e que a raiva não precisa terminar em silêncio.
Amanhã pode ser que a meia fique esquisita de novo. Você não precisa acertar sempre para mudar a história da sua família. Precisa começar a perceber.
Se você se pega repetindo padrões que jurou deixar para trás e quer entender de onde eles vêm, a terapia pode ajudar nesse caminho. Quando se sentir pronta, clique no botão de agendamento aqui no site e me chame no WhatsApp. A gente conversa e marca a sua sessão.